A expansão de javalis e javaporcos pelo território brasileiro tem provocado preocupação entre produtores rurais, não apenas pelos danos às lavouras e ao meio ambiente, mas também pelos possíveis riscos sanitários associados à presença dos animais. Em Goiás, o tema voltou a ser discutido em audiência pública realizada na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego), no sábado (19), com a participação de representantes do poder público e do setor rural.
Durante o encontro, a gerente de Sanidade Animal da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa), Denise Toledo, afirmou que o manejo da espécie precisa ser acompanhado por ações de vigilância epidemiológica. Segundo Denise, é necessário identificar quais agentes biológicos e vírus podem ser carregados pelos javalis e adotar medidas de prevenção e controle. A declaração, no entanto, não apontou a existência de um surto ou de uma doença específica provocada pelos animais em Goiás.
A preocupação sanitária está relacionada principalmente à possibilidade de os javalis circularem entre áreas de vegetação, propriedades rurais e criações comerciais, favorecendo o contato entre animais silvestres e domésticos. O próprio Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) considera o javali uma espécie exótica invasora nociva à agricultura, à pecuária, ao meio ambiente e à saúde pública. A espécie também pode carregar agentes capazes de afetar animais domésticos e silvestres.
Presença em dezenas de municípios
O javali (Sus scrofa) foi introduzido no Brasil a partir do século passado e se adaptou a diferentes ambientes. Sem predadores naturais capazes de controlar sua população e com elevada capacidade de reprodução, o animal se espalhou pelo País. Atualmente, há registros em 15 unidades da Federação, entre elas Goiás. O controle populacional foi autorizado pelo Ibama em 2013 e segue regras específicas para o manejo da espécie.
Em Goiás, estimativa divulgada pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-GO) aponta ocorrência em 61 dos 246 municípios do Estado. Entre as localidades citadas estão Orizona, Vianópolis, São Miguel do Passa Quatro, Leopoldo de Bulhões e Gameleiras. O conselho também já registrou relatos de danos ambientais e perdas de plantações provocados pelos animais.
Os impactos não se limitam ao consumo das plantações. Os animais reviram o solo em busca de alimento, danificam cercas, destroem pastagens e podem atingir nascentes. Em regiões afetadas, produtores relatam perdas significativas na produção. No Brasil, estimativas divulgadas em 2026 apontam que cerca de 3 mil javalis podem nascer diariamente, o que ajuda a dimensionar o desafio de conter a expansão da espécie.
Danos chegam às lavouras
O problema ganha proporções maiores porque o javali e seus híbridos, conhecidos como javaporcos, encontram no campo uma grande oferta de alimentos. Milho, soja, cana-de-açúcar e outras culturas estão entre os produtos consumidos pelos animais. Além de comerem parte da produção, os animais podem derrubar plantas, pisotear áreas cultivadas e destruir estruturas utilizadas pelos agricultores.
Levantamentos e relatos do setor apontam que, em algumas propriedades, os prejuízos podem representar uma parcela significativa da produção. Há registros recentes de estimativas de perdas de até 40% em lavouras de milho atingidas pelos animais.
O avanço também preocupa a atividade pecuária. Como circulam livremente entre áreas naturais e propriedades, os javalis podem entrar em contato com animais domésticos e rebanhos. É justamente nesse ponto que a questão ambiental se conecta à defesa sanitária: quanto maior a circulação dos animais, maior a necessidade de monitoramento para identificar possíveis agentes infecciosos e reduzir riscos de transmissão.
A Agrodefesa defende que o acompanhamento sanitário seja integrado ao controle populacional. A proposta é conhecer melhor a circulação dos animais e os agentes biológicos associados à espécie para orientar medidas preventivas. Até o momento, porém, a manifestação divulgada pelo órgão não indicou a existência de uma doença específica causada por javalis em Goiás.
Estado criou regras para controle
Em setembro de 2025, Goiás passou a ter uma legislação própria sobre o tema. A Lei nº 23.607 reconhece o javali e seus híbridos como espécie exótica invasora e animal nocivo à agricultura, à pecuária, ao meio ambiente e à saúde pública. A norma também autoriza ações de controle populacional e manejo sustentável.
A legislação permite, conforme autorização do órgão competente, medidas como perseguição, captura e eliminação dos animais. O texto estabelece ainda regras para o uso de armadilhas, determina que os animais capturados sejam abatidos no local e proíbe o transporte de javalis vivos, salvo situações excepcionais autorizadas.
A lei também determina que o governo estadual publique anualmente um Plano de Manejo e Monitoramento de Javalis. O objetivo é atualizar as estratégias de controle conforme a evolução da presença da espécie e as informações produzidas pelos órgãos responsáveis.
Apesar das regras, o controle permanece como um desafio. O Ibama estabelece procedimentos específicos para quem realiza o manejo, incluindo autorização e apresentação de relatórios das ações realizadas. O órgão recomenda que diferentes métodos de controle sejam utilizados de acordo com as características de cada área.
Vigilância é parte do enfrentamento
A discussão sobre os javalis deixou de estar restrita ao tamanho dos prejuízos provocados nas propriedades rurais. O avanço da espécie também envolve questões ambientais e de defesa sanitária, especialmente diante da possibilidade de contato com animais domésticos e rebanhos.
Para os produtores, a dificuldade está em controlar uma população que se reproduz rapidamente e ocupa áreas cada vez maiores. Para os órgãos públicos, o desafio envolve conciliar o controle da espécie com regras ambientais, sanitárias e de segurança.
A avaliação apresentada pela Agrodefesa durante a audiência pública reforça que o enfrentamento depende não apenas da retirada dos animais das propriedades, mas também do monitoramento dos riscos associados à presença deles. A identificação de agentes biológicos, a prevenção de doenças e o acompanhamento das áreas atingidas passam a integrar uma estratégia mais ampla de controle.
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